Crítica | "Fargo": A Comédia de Erros do Ser Humano


Durante a virada do ano de 2010 para 2011, uma operadora telefônica enviou uma mensagem de texto desejando feliz ano novo para uma mulher-bomba da Rússia, fazendo com que a bomba, planejada para ser detonada na Praça Vermelha de Moscou, fosse ativada antes da hora, assim evitando uma possível tragédia. Esse ocorrido poderia facilmente ser confundido com uma das tramas que a série antológica conta, pois esse é o cerne que une todas as temporadas e o longa de 1996 numa excêntrica e irônica comédia de erros. Criada em 2014 por Noah Hawley e inspirada no filme dirigido e roteirizado pelos Irmãos Coen - que também assinam como produtores da série -, Fargo narra em três temporadas, até então, dramas humanos com um tom de humor negro.


Trazendo uma estrutura semelhante à Trilogia das Cores do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski, ao evocar uma unidade e retomar apenas alguns personagens, Fargo traça de modo não linear a vida de alguns habitantes fictícios do estado de Minesota (EUA) em 2006, 1979 e 2010: Um vendedor de seguros que se envolve com uma trama de assassinatos, um casal envolvido num acidente e uma rivalidade entre irmãos por causa de um selo postal raro, respectivamente.

No geral, o núcleo é composto por uma sede policial e alguns criminosos, que ora estão num crime planejado ou apenas são pessoas que cederam à selvageria, pressão ou confusão do momento. Não estranhe se você achar que está assistindo a uma brilhante esquete estendida de Relatos Selvagens (2014), filme dirigido pelo argentino Damián Szifron. O que entra em questão é a capacidade do espectador em aceitar as complexas e controversas decisões de seus personagens, nada menos do que dignas de suas discutíveis e problemáticas personalidades que, geralmente, acabam criando uma grande matança. No entanto, Ben Travers da Indiewire escreveu que "Não estamos nos ajustando para ver a carnificina, mas para ver quem pode escapar dela.", resta ao espectador fazer as apostas.

Trilha sonora da 3ª temporada, vencedora do Emmy 2017.                  
 
A trilha sonora original de Jeff Russo, que venceu  busca ressaltar o tom de comédia da série, como ao introduzir músicas russas num episódio que crítica o atual governo de Vladimir Putin ou ao trazer um tema crescente que vai nortear toda a série e se tornar tão simbólico quanto o de Carter Burwell para o filme. A fotografia dos episódios também ganha destaque ao se utilizar das paisagens geladas, ao lado do design de set que utiliza o posicionamento de elementos cênicos pra guiar a mensagem da temporada de forma eficiente.

Ao referenciar ensaios filosóficos, anedotas, parábolas, paradoxos e enigmas, Fargo disserta minuciosamente seu ensaio sobre a comédia de erros que é a vida. Mas às vezes, há acertos também. Fargo é um desses acertos, que mesmo servindo de homenagem, a obra adquire sua própria essência e se firma como uma das melhores séries da atualidade, possivelmente a melhor.

Esdras Castiliano

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