La La Land: Os paradoxos e a beleza da Cidade das Estrelas


Hoje, 25 de Abril, é o Dia Oficial de La La Land em Los Angeles, uma data instituída pelo governo da cidade para celebrar o aclamado, amado, odiado e criticado filme. Aproveitando a data, acho que existem alguns pontos sobre a obra que foram abafados pelas controvérsias envolvendo o longa à época de seu lançamento e que foram pouco discutidos porque todos assumiram automaticamente que era um filme visualmente bonito, porém raso. Será que é isso mesmo? Creio que não. 

LOS ANGELES: Entre sonhos e realidade 

O próprio título do longa já entrega que a história é centrada na ensolarada capital da Califórnia, e muitos fãs do filme apontam a beleza e vivacidade com que ele retrata a icônica cidade, mas o que pouco se fala é da relação entre os aspectos visuais da obra, a história de Mia e Sebastian e toda a cultura da cidade em questão. Los Angeles é um polo de atração de artista das mais diversas áreas que buscam seu lugar ao sol, todos com sonhos de sucesso e fama, mas todos nós sabemos que em geral isso é uma visão puramente idealizada, e que na verdade a grande maioria dos sonhadores fracassa, e é justamente essa dicotomia que La La Land trabalha. Já na cena de abertura temos a visão de um engarrafamento, típico símbolo do caos na metrópole, simbolismo da realidade da cidade, mas logo esse engarrafamento é transformado num grande número musical cheio de cores e vida, protagonizado pela juventude sonhadora que chega à cidade das estrelas. Nesses primeiros minutos, Damien Chazelle, diretor do filme, já deixa claro qual é o tema norteador da obra, mas as evidências da forma como ele se utiliza disso são fortemente presentes no filme todo, num trabalho meticulosamente realizado.


A exemplo disso temos a cena da audição de Mia para um programa de TV. Observe como a jaqueta vermelha dela parece não pertencer ao ambiente seco que a cerca, uma metáfora visual clara para como os sonhos que a movem não se encaixam naquela sala, em que os avaliadores mal a deixam terminar uma frase antes de interrompe-la bruscamente, num choque de realidade que culmina numa cena ainda mais expressiva, em que Mia sai enfurecida do prédio, frustrada com seus próprios sonhos, e arranca a jaqueta do corpo violentamente, se despindo de suas fantasias.





Outro omento similar a esse ocorre logo na primeira audição da personagem, quando, depois de ser brutalmente dispensada, ela entra num elevador e abre o zíper de seu casaco azul, revelando por baixo um blusa branca manchada, igual às blusas de outras duas mulheres (também ruivas, diga-se de passagem) dentro do elevador. A frustração e o cansaço emocional a fazem pensar que ela é igual a todas, não é especial, apenas mais uma que nunca vai alcançar o que tanto almeja.


Na verdade, o uso do vermelho e de azul no filme é muito presente, com o vermelho aparecendo sempre para retratar os sonhos e paixões dos personagens, especialmente de Mia, e os tons melancólicos de azul simbolizando os momentos tristes e solitários da obra. Ótimos exemplos disso são a cena em que Mia anda triste pelas ruas fortemente iluminadas com azul até ouvir pela primeira vez a música de Sebastian, momento em que ela é emoldurada pelo vermelho:

E o último plano com a personagem, em que vemos a face dela banhada de azul por estar vendo o amor que um dia ela perdeu, mas com um fundo que brilha vermelho, simbolizando o sonho que ela alcançou. Gosto muito desse plano por ele ser um simbolismo de toda a atmosfera agridoce que envolve o final da obra. Os personagens sempre se lembrarão um do outro com um misto de felicidade pelo que viveram, e pesar por terem perdido o amor que os unia, mas essa tristeza vem acompanhada do bom sentimento de ter finalmente conseguido o que eles tanto batalharam para alcançar, e o que sempre foi a prioridade. É uma situação complicada, envolvendo sentimentos complexos, e que é traduzida narrativa e visualmente de forma muito simples, um olhar, um sorriso, dois planos, uma mistura de cores. Cinema puro.

O uso de cores, ou da ausência delas é presente ao longo do filme todo, e é fácil perceber a forma como a paleta de cores das cenas vai se alterando, esmaecendo, no trecho em que o romance do casal central começa a ruir, finalizando com a cena em frente a casa dela, tão lavada de cores que quase não parece fazer parte do mesmo universo que o enorme número musical no engarrafamento. Mas ela faz, e o equilíbrio entre essas duas estéticas é perfeito. E até a presença ou ausência da música no filme colabora pra diferenciar o real do ideal nesse universo, a exemplo dos acontecimentos depois da performance de Start A Fire, quando os números musicais desaparecem, só retornando em Audition, quando a carreira de Mia finalmente vai pra frente, e ao final, quando a obra realmente passa de vez para um colorido, alegre e musical estado de sonho, onde tudo é ideal.

É interessante observar que muitos criticaram La La Land justamente por ele "se esquecer" do aspecto musical por um tempo, mas eu em particular acho essa uma manobra fantástica, que dá significado às performances do filme e faz da obra "um musical com causa". 

No final das contas o que Damien Chazelle faz é usar todos os recurso que a linguagem cinematográfica lhe oferece para construir um retrato da dualidade que a cidade de Los Angeles representa para os sonhadores. Um lugar que nutre e esmaga sonhos na mesma proporção, que parece mágico e cruel ao mesmo tempo, e que é envolta numa mística fantasiosa que esconde sua realidade dura.

CLÁSSICO E CONTEMPORÂNEO

Outro tema muito presente em La La Land, e que também é fortemente relacionado à cidade em questão, é a briga, ou a coexistência, entre a arte clássica e a atual. Los Angeles possui toda uma carga histórica da criação de Hollywood e do cinema clássico americano, mas também é a fábrica do cinema americano da atualidade, o que gera um contraste interessante que é fortemente trabalhado em La La Land.

Essa temática é mais centrada no personagem de Ryan Gosling, Sebastian, o pianista que sente repulsa pelo por novas formas de Jazz que não a forma clássica. O engraçado é que muitos espectadores consideraram que o filme era a favor das visões desse personagem, e que o personagem de John Legend, Keith, seria uma espécie de "vilão" na história, mas eu vejo essa problemática de outra forma, e creio que o discurso do filme é, na verdade, o mesmo que o do personagem de Legend.

La La Land foi concebido como um filme que usaria os moldes formais do cinema musical clássico misturado com uma história do nosso tempo para criar algo novo e conciliar diferentes épocas do cinema, conceito que é perceptível nos figurinos, na trilha sonora, nas coreografias e em basicamente qualquer outro aspecto da obra. Semelhantemente, Keith e sua banda tocam um ritmo musical tradicional, mas acrescentando a ele os sons eletrônicos e a batida animada que é característica da música contemporânea, mostrando que o que é antigo não precisa permanecer no passado, e pode sim se atualizar para algo consoante com nossa época. Se você achou essas palavras familiares é porque o próprio diretor Damien Chazelle as usou para descrever seu filme mais de uma vez.





"Como você vai ser um revolucionário se você é tão tradicionalista?" Legend pergunta a Gosling, numa cena que claramente exalta o posicionamento do cantor. É esse balanceamento que La La Land tenta (e consegue) fazer. Um musical original, com números limpos e não engrandecidos por uma montagem-tapa-buraco, e que fez um sucesso estrondoso tanto entre jovens quanto entre críticos e associações tradicionais de prêmios.

Existe uma cena no filme que resume bem toda essa proposta, a cena do primeiro encontro de Mia e Sebastian. A jovem mocinha sai correndo de um restaurante onde estava presa num jantar chato com ricos esnobes, e vai atrás de seu amor num cinema decadente, e no escuro da sala eles dão as mãos e se aproximam para um primeiro beijo... Tudo isso parece saído diretamente de um romance inocente do século passado, uma chuva indiscriminada de adoráveis clichés, mas que é logo interrompida, e abre espaço para algo novo, e que já está fortemente marcado na mente de muitos amantes de cinema. Mia e Seb abandonam o cinema e saem para o planetário, onde dançam entre as estrelas, construindo um momento que é só deles. O clássico, antigo, dá lugar para o fresco, o atual, que um dia se tornará antigo e assim vai. É muito lindo pensar que o que interrompe a progressão arcaica da cena é justamente a deterioração literal de um clássico, mas que esse clássico não é abandonado ou desconsiderado na construção do novo, muito pelo contrário, é no lugar onde um dia aquilo que hoje é uma relíquia antiga aconteceu (o planetário Griffith) que o casal da atualidade escreve sua própria história, usando o solo do antigo como palco para o novo.



É isso que eu acho tão bonito em La La Land. O filme possui um discurso, faz desse discurso parte de sua história e ainda por cima é um produto do seu próprio discurso, provando automaticamente a validade do mesmo. Também é refrescante ver uma obra que trata o cinema como seu tema central, mas sem exaltar cegamente o passado clássico nem criticar duramente o cenário atual da sétima arte. O que La La Land trás é uma perspectiva, uma perspectiva que valoriza toda a história do cinema e o seu papel na formação da arte que existe hoje, mas entende que não adianta se apegar ao passado sem valorizar o presente e pensar no futuro, lição que os dois protagonistas do filme aprendem eventualmente.

Enfim, por essas e outras que realmente valorizo La La Land como um grande filme, e me delicio com a experiência tremendamente prazerosa que é ver um filme que se utiliza de um asseio cinematográfico impressionante para me lembrar que o cinema deve olhar para a frente, mas sem nunca sair da luz do passado.

Filipe Cordeiro

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